IA vai substituir profissionais de TI? Minha resposta depois de mais de 30 anos na área

Resposta direta: não do jeito que a manchete sugere. A inteligência artificial já eliminou vagas reais de tecnologia — no primeiro trimestre de 2026, 9.238 dos 45.363 desligamentos no setor global de tech foram atribuídos diretamente à adoção de IA, cerca de 20% do total, concentrados numa dúzia de empresas grandes. Mas isso não responde à pergunta que a maioria dos gestores de TI está realmente fazendo, que é se IA vai substituir profissionais de TI no Brasil na escala que a manchete promete. A resposta muda quando você olha para o outro lado da conta: o país forma cerca de 53 mil profissionais de tecnologia por ano para uma demanda de 159 mil, com déficit acumulado de mais de 500 mil vagas desde 2021, segundo a Brasscom.

Depois de mais de 30 anos em tecnologia, já vi essa pergunta ser feita — com outras palavras — pelo menos três vezes antes: quando o mainframe cedeu lugar à arquitetura web, quando a nuvem tirou o operador de infraestrutura de dentro do datacenter, e quando o low-code prometia acabar com o desenvolvedor júnior. É o mesmo ciclo que já vivi em 2012 com a primeira onda de IA conversacional, numa escala menor. Nenhuma dessas ondas extinguiu a profissão. Todas mudaram, de forma abrupta, qual tarefa dentro da profissão valia a pena pagar para alguém fazer. É essa mudança — não o desaparecimento do cargo — que muda a estrutura do seu time de TI agora.

Principais aprendizados

  • Os cortes atribuídos diretamente à IA no setor de tecnologia são reais, mas ainda concentrados: 9.238 dos 45.363 desligamentos do primeiro trimestre de 2026 vieram de um pequeno grupo de empresas grandes, não de uma tendência disseminada em todo o mercado.
  • No Brasil, o obstáculo estrutural continua sendo a escassez de gente qualificada, não o excesso: déficit acumulado de mais de 500 mil profissionais de tecnologia desde 2021, segundo a Brasscom — isso muda o cálculo de risco de quem pensa em cortar time por causa de IA.
  • A IA não elimina a função de TI, redistribui onde está o valor dentro dela: tarefa de execução (codificar rotina, testar manualmente, documentar) perde espaço; tarefa de julgamento (definir requisito, revisar critério de aceite, priorizar backlog) fica mais escassa e mais cara.
  • Toda onda de automação que vivi em mais de 30 anos de carreira mudou o que se contrata, sem extinguir o cargo — mainframe, depois web, depois nuvem, agora IA generativa: cada uma matou uma tarefa específica e criou outra mais valorizada no lugar.
  • O risco real para uma empresa de médio porte não é “ter gente demais” — é manter uma estrutura de time desenhada para tarefa de execução, num momento em que a tarefa que ficou escassa é outra.

Quantos empregos de TI a IA já eliminou de verdade?

Resposta direta: menos do que a manchete sugere, mas mais do que zero. No primeiro trimestre de 2026, o setor global de tecnologia registrou 45.363 desligamentos, e 9.238 deles — cerca de 20% — foram atribuídos diretamente à adoção de inteligência artificial. Não é um número desprezível, mas também não está distribuído de forma uniforme: uma parcela relevante veio de um grupo pequeno de empresas grandes que reestruturaram áreas inteiras de suporte e operação de uma vez, não de um corte generalizado em toda companhia que usa IA.

O detalhe que costuma passar batido é qual tarefa foi eliminada, não qual cargo. As áreas mais atingidas concentram trabalho de padrão bem definido e alto volume: suporte de primeiro nível, geração de código repetitivo, triagem de chamados, teste manual de regressão. É o mesmo padrão que descrevi ao mapear onde a IA funciona e onde é só desperdício no atendimento: tarefa de padrão claro e alto volume sai primeiro, tarefa que exige entender o contexto do cliente, negociar prioridade com outra área ou decidir o que não vale a pena automatizar continua sem substituto direto.

Por que o Brasil não vive o mesmo risco de desemprego em TI que os Estados Unidos?

Resposta direta: porque o Brasil chega nessa onda de automação com um problema estrutural oposto ao dos mercados que mais demitem. O país forma cerca de 53 mil profissionais de tecnologia por ano, enquanto a demanda do mercado gira em torno de 159 mil — uma lacuna que a Brasscom estima em mais de 500 mil posições acumuladas sem preencher desde 2021. Isso não significa que nenhuma empresa brasileira vá reduzir time por causa de IA; significa que a maioria delas ainda está competindo por gente qualificada, não sobrando dela.

Isso muda a decisão prática de quem lidera uma área de tecnologia em empresa de médio porte: o corte de vaga por causa de ganho de produtividade com IA tende a aparecer primeiro em papel de execução redundante — não em profissional sênior que já é escasso no mercado local. Já vi diagnóstico de cliente em que a dor real não era “excesso de gente em TI”, era a distribuição errada: gente sênior gasta tempo demais em tarefa de execução que uma ferramenta já resolveria, enquanto a vaga que a empresa não consegue preencher há meses é justamente a de quem tomaria a decisão de onde aplicar essa mesma ferramenta.

O que muda de verdade no seu time de TI, se o tamanho não é o problema?

Resposta direta: muda o perfil de contratação, não o headcount total — pelo menos não como primeiro movimento. Em cada onda de automação que atravessei, a vaga que sumiu primeiro foi a de entrada, com escopo estreito e bem documentado: operador que rodava job de mainframe, depois analista que fazia deploy manual, depois quem escrevia teste de regressão repetitivo. A vaga que ficou mais cara e mais disputada foi sempre a de quem decide o que automatizar, em que ordem e com que critério de risco — porque essa tarefa não vem com manual de instrução, vem de ter visto o processo dar errado algumas vezes antes.

Antes de decidir reduzir ou recompor o time de TI por causa de IA, a pergunta que costumo levar para o cliente não é “quanto dá para cortar”, é “quanto do trabalho hoje é execução com padrão repetível, e quanto é julgamento que ainda depende de uma pessoa entender o contexto” — a mesma lógica de perímetro que discuto em qual é o papel do CTO em projeto de IA. Empresa que corta pelo primeiro critério sem medir o segundo troca economia de curto prazo por um gargalo de decisão que aparece poucos meses depois — normalmente na hora em que a ferramenta de IA erra em um caso que ninguém no time mais sabe reconhecer como exceção.

Perguntas frequentes

A IA vai substituir programadores no Brasil?

Não da forma que a manchete sugere. A IA já elimina tarefa de programação repetitiva e bem documentada, mas o déficit estrutural de mais de 500 mil profissionais de tecnologia no país (Brasscom) reduz o risco de desemprego em massa nos próximos anos — o que muda é o perfil de tarefa que a empresa paga para um programador fazer.

Quais funções de TI correm mais risco com a IA?

As de padrão bem definido e alto volume: suporte de primeiro nível, teste manual de regressão, geração de código repetitivo e triagem inicial de chamados. Função que exige entender contexto de negócio, negociar prioridade ou decidir exceção continua sem substituto direto da IA hoje.

O Brasil vai sofrer os mesmos cortes de TI que os Estados Unidos?

Não na mesma escala. O déficit de mão de obra qualificada em tecnologia no Brasil — 53 mil formados por ano contra demanda de 159 mil, segundo a Brasscom — funciona como amortecedor. Isso não impede reestruturação pontual, mas reduz a chance de corte generalizado como o observado em mercados com oferta de talento mais madura.

Vale a pena reduzir o time de TI por causa do ganho de produtividade com IA?

Só quando a redução mira tarefa de execução com ganho de produtividade já comprovado internamente, não como corte generalizado por modismo. Antes de decidir, meça quanto do trabalho do time é execução repetível e quanto é julgamento dependente de contexto — cortar o segundo tipo custa mais caro poucos meses depois.

Gillian Pellegrino tem mais de 30 anos de carreira em tecnologia e é fundadora da HAIA, consultoria de IA aplicada para empresas de médio porte. Se você quer entender onde sua empresa está de verdade antes de decidir cortar ou recompor o time de TI, fale com a HAIA.

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